' sozinhos não eramos mais do que vento a roçar o solo despido de qualquer graça '

Sejam bem vindos a este cantinho, a estas páginas de sentimentalismo
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domingo, 11 de maio de 2014

o Clique!


Emergindo pela primeira vez, a sensação de renascer das cinzas torna-nos mais tolerantes e ao mesmo tempo sensíveis. A olhares. A palavras. A sensações.
É raro, mergulhados nas nossas esferas de sentimentos, ilusões e desejos, apercebermo-nos de determinados detalhes. Muitas vezes deixamos escapar perfeitos momentos, que podiam ter ocorrido, não estivessemos tão imiscuídos do envolvente. 
Mas quando somos resgatados da monotonia da vivência, quando somos tocados por um desses momentos, há algo que inevitavelmente se altera. O Clique! Algo dentro de nós desfragmenta-se, inevitavelmente, por não sabermos como reagir ao impulso de nos deixarmos no limbo, apreciando esse momento.
O clique pode ocorrer com uma visão, com um som ou sussurro. Uma voz. Uma vibração. Sós ou acompanhados. A dois ou numa multidão. Não importa. Apenas temos que estar fora de nós mesmos, prontos para o receber. 
Sorrisos. Sim. Sorrisos podem despertar esse momento perfeito. A simplicidade. O desconversar completamente inócuo, mas que de tão ligeiro se torna tão puro e inocente. E os sorrisos emersos da inocência são da maior perfeição possível.
Quando passamos por momentos assim, não há como ficar igual. Toca-nos profundamente, altera-nos. Remexe com o que pensávamos, com as nossas ideias preconcebidas. E o que fazer a seguir?
Essa é a pergunta que nunca queremos responder. Deveria ser imediata a reacção. Abraçar para sempre esse momento, não deixá-lo escapar. 
Mas como sempre, vivemos neste faz de conta, rodeados por renda e alecrim, fazendo casas de brincar e criando histórias a todo o momento, entretidos do tédio visceral que é o diário. E nesses momentos, muitas vezes, refugiamo-nos nesse conforto ou nessa ideia de conforto, que é o vazio. E, refugiados, vemos, muitas vezes, aqueles momentos perfeitos escaparem. Invariavelmente perdendo-se... no infinito da memória.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Viagem numa névoa de fumo

Espessa e convoluta, rodeia-me esta névoa de fumo, ora agressiva ora doce, envolvente apenas, estonteante até. O tempo pára.
Sinto a tua respiração, ofegante do cigarro fumado. O tempo pára.
O tempo pára.

O mundo gira à nossa volta, os risos habituais, as conversas que não oiço porque não consigo ouvir nada mais. O tempo parou.
Sorris, sorrio, sorrimos um pouco de cada vez, ora hesitantes ora ousados, sorris, sorrio, sorrimos um pouco mais. O tempo parou.

Os dados rolam, vão rolando e roçagando-se no tapete usado de tantas vezes jogado, um passado e presente, tão próximos e tão íntimos, mas intocáveis ainda assim. Rolam e não deixam de rolar, mas não os vejo. Foi um ou dois, foram dez ou vinte? Não sei, não vi. O tempo parou, mas não deixou de rolar; o movimento dos dados é tão relativo quanto o tempo. Para mim deixou de contar, lá fora continuou a rolar. Rolou ou não? O que importa? Para mim não rodaram e nem o tempo passou. Fiquei lá, assim, pasmada.

Sinto o fresco da noite, refresca-me a pele. Só agora notei que é noite. É noite ou dia? Nem me tinha indagado com tal. O que importa?, pensei eu. Nada!, pois. Noite ou dia, manhã ou tarde, tempo é tempo e se eu não o vejo, não importa se é noite ou dia, manhã ou tarde. Estou aqui, envolta nesta espessa e convoluta névoa de fumo, perdida no tempo e num lugar. Estou aqui. Também não importa onde. Encontrei este lugar e aqui quero ficar. Não o conheço bem, não sei o que é, não lhe conheço os cantos, mas sei que aqui dentro estou num sítio mágico... Aqui eu sinto-me bem. Mesmo envolvida nesta fumaça é como se ela não existisse. Ela existe sim. Faz parte deste lugar, que é bom. É quente. Quente não, é bom. Ele desmultiplica-se, encolhe e expande. Volta-se a encolher e a expandir e fica frio de repente, mas eu estou bem aqui. É quase como se me sentisse em casa, é confortável e tranquilo. Mas expande e encolhe tão rápido, não vejo, e dou por mim enrolada a um canto, perdida nestes cantos, pergunto-me onde estou. Estou bem aqui?, indago.

Volto a mim. Perdi-me no teu olhar. Estava aqui distraída, sem dar conta do tempo ou do lugar, que até me perdi no teu olhar, viajei pelas ondas de cor, pelos nervos sensoriais e cheguei a algum sítio que gostei, onde me senti em casa. Mas esse lugar é ansioso e não gosta de estranhos, é frio e quente, é confortável e inesperado.  


De repente, todo o som, todo o tempo, todo o lugar, tudo me alcança exasperadamente. Um turbilhão de agressões, uma multitude de sensações, tudo me alcança exasperadamente. Olho à volta e já nada está ali. Nem os sorrisos, nem o conforto daquele lugar ou a névoa espessa que me envolve deliciosamente num transe por um mundo só teu, onde qualquer estranho é impedido de entrar, excepto, talvez, por raros instantes, em momentos como este, em que o tempo pára, de tão bem que nos sentimos assim, ingénuos. O tempo voltou, oiço claramente as conversas alheias, o roçagar dos vestidos nas pernas, o bater dos sapatos na madeira velha do chão. A televisão pisca e incendeia-me os ouvidos de som, as luzes dos candeeiros encadeiam-me a visão. O teu olhar perdeu-se no meio de alguma coisa, voltaste a ficar ausente. Despedimo-nos assim, como em tantas noites, envoltos em mistério e magia, mas sós, completamente sós.  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

saber o que sei

Saber o que sei, saber. Viver com isto em mim. Há dias assim. Há dias que imagino que nada do que sinto é real, porque estou longe ou porque simplesmente não penso nesse sentimento e tento que ele desfaleça, por falta de alimento. Esses dias são calmos, por vezes com um toque de cinza, porque a cor não resulta bem. Mas depois desses primeiros momentos, sinto-me bem. Não há maior alegria do que a de liberdade e este sentimento prende-me a ti e a um abismo, ao qual me recuso atirar. E quando tudo parece ir bem, porque ninguém pensa que algo que está moribundo consiga despertar tão rapidamente, assim vem ele, aquele sentimento que oculto, por vezes de mim mesma. É aquele olhar que às vezes sinto deslizar sobre mim sem que retribua. É aquele sorriso com os olhos a brilhar que me invade o coração, porque é entre mim e tu. Não sei se me ouves quando te digo mudamente que não quero que te vás. Mas tu ficas ou tentas ficar. Devolves-me o olhar com ternura, mas ao mesmo tempo vejo que te escondes. Tens que te esconder. Mas continuo com a mesma dúvida quanto aos motivos. Sentas-te a meu lado e parece que tudo pára. Tudo é tão fácil quando ali estás. Os sorrisos que não param, mesmo quando, alguém nos vê. E no fundo é isso que importa, é este bem-estar. Mas eu sei que o dia acaba e estou só, novamente. Não te vejo e nem te sinto, porque não dá para te sentir quando vivemos assim. Tocas-me a alma e eu sinto que também queres partilhar estes momentos comigo. Saber isto é o que me basta, por agora. Basta porque eu o vejo nos teus olhos e eles não mentem. Pelo menos, não os teus. E é na esperança que haverá um dia em que nos possamos abrir, que tudo aquilo que sonhamos se possa concretizar, que eu te espero, que eu te anseio e não páro de te sonhar. Porque mesmo assim dói, tanto por não te ter como por te querer.