' sozinhos não eramos mais do que vento a roçar o solo despido de qualquer graça '

Sejam bem vindos a este cantinho, a estas páginas de sentimentalismo

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Viagem numa névoa de fumo

Espessa e convoluta, rodeia-me esta névoa de fumo, ora agressiva ora doce, envolvente apenas, estonteante até. O tempo pára.
Sinto a tua respiração, ofegante do cigarro fumado. O tempo pára.
O tempo pára.

O mundo gira à nossa volta, os risos habituais, as conversas que não oiço porque não consigo ouvir nada mais. O tempo parou.
Sorris, sorrio, sorrimos um pouco de cada vez, ora hesitantes ora ousados, sorris, sorrio, sorrimos um pouco mais. O tempo parou.

Os dados rolam, vão rolando e roçagando-se no tapete usado de tantas vezes jogado, um passado e presente, tão próximos e tão íntimos, mas intocáveis ainda assim. Rolam e não deixam de rolar, mas não os vejo. Foi um ou dois, foram dez ou vinte? Não sei, não vi. O tempo parou, mas não deixou de rolar; o movimento dos dados é tão relativo quanto o tempo. Para mim deixou de contar, lá fora continuou a rolar. Rolou ou não? O que importa? Para mim não rodaram e nem o tempo passou. Fiquei lá, assim, pasmada.

Sinto o fresco da noite, refresca-me a pele. Só agora notei que é noite. É noite ou dia? Nem me tinha indagado com tal. O que importa?, pensei eu. Nada!, pois. Noite ou dia, manhã ou tarde, tempo é tempo e se eu não o vejo, não importa se é noite ou dia, manhã ou tarde. Estou aqui, envolta nesta espessa e convoluta névoa de fumo, perdida no tempo e num lugar. Estou aqui. Também não importa onde. Encontrei este lugar e aqui quero ficar. Não o conheço bem, não sei o que é, não lhe conheço os cantos, mas sei que aqui dentro estou num sítio mágico... Aqui eu sinto-me bem. Mesmo envolvida nesta fumaça é como se ela não existisse. Ela existe sim. Faz parte deste lugar, que é bom. É quente. Quente não, é bom. Ele desmultiplica-se, encolhe e expande. Volta-se a encolher e a expandir e fica frio de repente, mas eu estou bem aqui. É quase como se me sentisse em casa, é confortável e tranquilo. Mas expande e encolhe tão rápido, não vejo, e dou por mim enrolada a um canto, perdida nestes cantos, pergunto-me onde estou. Estou bem aqui?, indago.

Volto a mim. Perdi-me no teu olhar. Estava aqui distraída, sem dar conta do tempo ou do lugar, que até me perdi no teu olhar, viajei pelas ondas de cor, pelos nervos sensoriais e cheguei a algum sítio que gostei, onde me senti em casa. Mas esse lugar é ansioso e não gosta de estranhos, é frio e quente, é confortável e inesperado.  


De repente, todo o som, todo o tempo, todo o lugar, tudo me alcança exasperadamente. Um turbilhão de agressões, uma multitude de sensações, tudo me alcança exasperadamente. Olho à volta e já nada está ali. Nem os sorrisos, nem o conforto daquele lugar ou a névoa espessa que me envolve deliciosamente num transe por um mundo só teu, onde qualquer estranho é impedido de entrar, excepto, talvez, por raros instantes, em momentos como este, em que o tempo pára, de tão bem que nos sentimos assim, ingénuos. O tempo voltou, oiço claramente as conversas alheias, o roçagar dos vestidos nas pernas, o bater dos sapatos na madeira velha do chão. A televisão pisca e incendeia-me os ouvidos de som, as luzes dos candeeiros encadeiam-me a visão. O teu olhar perdeu-se no meio de alguma coisa, voltaste a ficar ausente. Despedimo-nos assim, como em tantas noites, envoltos em mistério e magia, mas sós, completamente sós.  

Sem comentários:

Enviar um comentário