Espessa e convoluta, rodeia-me esta névoa de fumo,
ora agressiva ora doce, envolvente apenas, estonteante até. O tempo pára.
Sinto a tua respiração, ofegante do cigarro fumado.
O tempo pára.
O tempo pára.
O mundo gira à nossa volta, os risos habituais, as
conversas que não oiço porque não consigo ouvir nada mais. O tempo parou.
Sorris, sorrio, sorrimos um pouco de cada vez, ora
hesitantes ora ousados, sorris, sorrio, sorrimos um pouco mais. O tempo parou.
Os dados rolam, vão rolando e roçagando-se no tapete
usado de tantas vezes jogado, um passado e presente, tão próximos e tão
íntimos, mas intocáveis ainda assim. Rolam e não deixam de rolar, mas não os
vejo. Foi um ou dois, foram dez ou vinte? Não sei, não vi. O tempo parou, mas
não deixou de rolar; o movimento dos dados é tão relativo quanto o tempo. Para
mim deixou de contar, lá fora continuou a rolar. Rolou ou não? O que importa?
Para mim não rodaram e nem o tempo passou. Fiquei lá, assim, pasmada.
Sinto o fresco da noite, refresca-me a pele. Só
agora notei que é noite. É noite ou dia? Nem me tinha indagado com tal. O que
importa?, pensei eu. Nada!, pois. Noite ou dia, manhã ou tarde, tempo é tempo e
se eu não o vejo, não importa se é noite ou dia, manhã ou tarde. Estou aqui,
envolta nesta espessa e convoluta névoa de fumo, perdida no tempo e num lugar.
Estou aqui. Também não importa onde. Encontrei este lugar e aqui quero ficar.
Não o conheço bem, não sei o que é, não lhe conheço os cantos, mas sei que aqui
dentro estou num sítio mágico... Aqui eu sinto-me bem. Mesmo envolvida nesta
fumaça é como se ela não existisse. Ela existe sim. Faz parte deste lugar, que
é bom. É quente. Quente não, é bom. Ele desmultiplica-se, encolhe e expande.
Volta-se a encolher e a expandir e fica frio de repente, mas eu estou bem aqui.
É quase como se me sentisse em casa, é confortável e tranquilo. Mas expande e
encolhe tão rápido, não vejo, e dou por mim enrolada a um canto, perdida nestes
cantos, pergunto-me onde estou. Estou bem aqui?, indago.
Volto a mim. Perdi-me no teu olhar. Estava aqui
distraída, sem dar conta do tempo ou do lugar, que até me perdi no teu olhar,
viajei pelas ondas de cor, pelos nervos sensoriais e cheguei a algum sítio que
gostei, onde me senti em casa. Mas esse lugar é ansioso e não gosta de
estranhos, é frio e quente, é confortável e inesperado.
De repente, todo o som, todo o tempo, todo o lugar,
tudo me alcança exasperadamente. Um turbilhão de agressões, uma multitude de
sensações, tudo me alcança exasperadamente. Olho à volta e já nada está ali.
Nem os sorrisos, nem o conforto daquele lugar ou a névoa espessa que me envolve
deliciosamente num transe por um mundo só teu, onde qualquer estranho é
impedido de entrar, excepto, talvez, por raros instantes, em momentos como
este, em que o tempo pára, de tão bem que nos sentimos assim, ingénuos. O tempo
voltou, oiço claramente as conversas alheias, o roçagar dos vestidos nas
pernas, o bater dos sapatos na madeira velha do chão. A televisão pisca e incendeia-me
os ouvidos de som, as luzes dos candeeiros encadeiam-me a visão. O teu olhar
perdeu-se no meio de alguma coisa, voltaste a ficar ausente. Despedimo-nos
assim, como em tantas noites, envoltos em mistério e magia, mas sós,
completamente sós.
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