Chove incessantemente, chove e chove. Tentaria que não chovesse, se ao menos pudesse fazer com que parasse, sim, era isso. Mas como posso eu parar a chuva, se nem as lágrimas que oculto param de cair. E é disso que se trata, parar o que queremos, travar o que não queremos que nos inunde o nosso espaço, que corra para nós e nos espelhe o que temos, o que não temos e o que somos. O que tenho é tanto mas porque não me chega? E aquilo que não tenho porque não quero sequer olhar? Não está certo querer o que não podemos ter, para simplesmente dispensar o que podíamos, simplesmente porque podemos. Porque sinto que faço isso quando sei que o não devo fazer, quando não há motivos para o fazer, porque não sou quem deva, para isso fazer? Querer o que não podemos ter faz-nos fazer destas coisas. E lá fora chove, reflexo da minha alma, perdida na tristeza do abandono do ser, de ter tanto e não ter nada, só neste mundo de confusão e ilusão, em que o tudo é nada e o nada é tudo, onde a escala de som está invertida e distorcida, em que o normal é gritar quando se quer desabafar e falar doce quando se quer enganar. És a harmonia dos corações quando penso em ti, e sorrio no que penso porque o que penso é bom e tu havias de gostar. Nada de indiscreto, mas puro e do teu jeito. Mas tudo aquilo que nos separa é água, a água destas lágrimas que derramo, porque no meio de todo este incumprimento há outros que sofrem, tão silenciosamente quanto eu. E porque devo eu deixá-los sofrer, quando não é isso que tenciono? Era tão mais simples se nada disto tivesse acontecido, se naquela manhã que te vi, dos teus olhos não me tivesse apaixonado, talvez nunca estas palavras escrevesse, fosse a ti ou a alguém. Se o teu olhar no meu não tivesse tocado, talvez nada disto se tivesse passado. Mas como desejar que nada disto tivesse acontecido, se o que sinto é por ti tão bom e carinhoso? Não quero nada em troca, talvez. Leva-me as lágrimas de despeito, a dor de nada disto ser possível, apenas, porque não te conheci noutro tempo, com outro alento, com outro elenco. Desculpa-me por estas palavras, mas sem elas eu estaria só.
Quando o lado humano descontroladamente toma conta do que escrevo e o sangue pulsa até o momento passar... é aí que o paleio sem senso ocorre, mas sempre num momento sensível
' sozinhos não eramos mais do que vento a roçar o solo despido de qualquer graça '
Sejam bem vindos a este cantinho, a estas páginas de sentimentalismo
sábado, 19 de novembro de 2011
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Palavras
Palavras raramente expressam aquilo que sentimos, mas por vezes quando o que menos queremos é dizer alto o que sentimos, as palavras escritas são a melhor solução.
As sombras da razão assolam o meu pensamento, agora que penso no que penso de ti. Diria que a razão levaria a melhor, caso não fosse o que fosse, caso não valesse a pena. Medo não é, mas respeito. O que se pode dizer de alguém que pensa o que eu penso de ti, mas ao mesmo tempo pensa em quem pensa em ti? Será que valerá a pena desfazer o que está feito, quando o benefício é incerto, quando o futuro é pintando a cinza e o caminho turvo como as águas paradas? Penso em ti e sinto paz. Como é que alguém tão humano pode fazer despertar algo tão bom e pacífico? Imagino, porque sou fértil nisso, como seria?, como faria?, mas invariavelmente os meus pensamentos morrem na parede do desconhecido, na incerteza desse pensamento tão impróprio e descabido. E de ti? O que chegará a ti? Será que os pensamentos inapropriados também descansam sobre o teu pensamento tranquilo na noite, que chega, invariavelmente com aquilo que menos queremos pensar? Nunca é fácil, admitir. Será que não admites porque é complicado demais ou porque não há nada a admitir? Será que te permites ter dúvidas quando no fundo não há motivo nenhum para sentires dúvidas sobre um futuro que há muito começaste a construir? A implicação dos destinos é tão intricada como bela. A beleza da casualidade e do acaso não deixam de ser tão misticamente acarinhados como destino. Será que é destino o meu fado arrastar-me para ti, repetidamente em histórias e coincidências de vida tão grandes como as que verificámos, no passado e agora? No fundo a razão é tendenciosa. Podemos pensar o que quisermos durante o tempo que quisermos sobre o que for, encaminhar as nossas intenções com as observações e fazer um quadro minimalista das diferenças e uma paisagem com o que nos aproxima. Poderia pintar um novo mundo se aplicasse tais regras ao que observo e gostaria de observar, mas se estou tão alertada para esta realidade, para quê afogar-me em ilusão, quando a decepção é tão mais forte que o sonho? Mas eu gosto de sonhar e orgulhosamente errada gosto de me considerar forte o suficiente para aguentar as decepções que a vida me traz. Valerás a pena esse mergulho sem ar, a chapada fria de Janeiro após uma palavra deslocada, a pontada no peito quando alguém perde as suas ilusões? Sim, acho que sim. És a humanidade que qualquer um procura, a alegria e responsabilidade que tão mal se dão e que tão bem sabem, o conforto do olhar quando por motivo algum e nenhum se cruza com o de outrem. É o teu sorriso que aquece aquelas noites frias e faz o olhar brilhar, quando pouco mais do que apenas as ilusões me restam para sonhar. És isso e muito mais, porque ainda não te descobri, apenas te vi, de relance, sobre aquele palco no qual todos actuamos. Quero te ver muito mais, apesar dos panos da cortina da vida estarem puxados e apenas te ver de relance nos poucos segundos que a vida nos permite olhar para o lado. O quão nos podemos querer é algo que não posso pensar, quando me afasto de ti a velocidades sobre-humanas, quando vejo as luzes da estrada passar e o céu mudar de cor. O tecto do meu sonho é o universo, será que também ele é o teu? Os tremores da terra fazem-te vibrar como o meu âmago treme, cada dia, cada momento em que penso no além e no aqui, no agora e a toda a hora? Querer mais e mais, apesar de ter ainda tão pouco, sempre pouco e sempre tanto. Anseio viver tanto quanto amar, a ti ou aquele que me permitir tocar, sentir, ou apenas chegar perto. Será que tens essa vida dentro de ti, o além-mar maior que o sentimento de impotência, de ignorância, vontade de ficar, não sair e ficar, como um dia conseguimos chegar? Vem comigo, pintar o caminho que um dia ousei contigo sonhar e, viver, para lá do que qualquer um de nós pôde imaginar.
Não. Na realidade não. Porque a razão toma a minha acção e sobre o sonho repouso, contigo no pensamento até ao dia que acordar, e me recordar que não vale a pena sonhar se da tela do sonho não transpuser para a realidade e que não passaste de cor num mundo tão meu, de noite, vivência e maravilhar. Não sou quem queria ser para te ter, mas ao mesmo tempo não quero ser quem teria que ser para o fazer. E quero mais ser quem sou do que ser quem teria que ser para te viver. Não quero forçar o amar quando tão pouco existe, e do querer não devemos forçar o ter. Mas como resistir, quando em teus olhos revejo os meus, quando naqueles instantes em que só os dois vivemos há um sorriso perdido na multidão, um entreolhar que apenas nós trocamos, sem que ninguém mais o partilhe? O teu calor rodeia o meu ser, quando com palavras tão simples consegues colocar a tua ternura e num toque da tua mão me chegas a tua essência, beleza invisível mas tão essencial. Esquecer eu não posso, pois está além do que consigo humanamente ser. E tendo noção de tudo o que implica a razão e o dever, devo não dizer o que penso em voz alta, com pena de no ridiculamente real não existir este sonho e de com o meu sonho arruinar o sonho de outrem. Mas conseguirei eu evitar o teu olhar, quando o meu, ele procurar? Conseguirei não ir em direcção a ti quando os teus passos de mim se aproximarem? Negarei com o meu ser o teu sorriso quando a mim for dirigido e conseguirei transferir tudo o que sinto para um olhar sem expressão, para do que já trocámos, qualquer ideia se dissipar de que é na áurea do que vivemos que fui feliz? Tentarei… nem que de mil palavras me desfaça, por não te ter.
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