' sozinhos não eramos mais do que vento a roçar o solo despido de qualquer graça '

Sejam bem vindos a este cantinho, a estas páginas de sentimentalismo

domingo, 4 de março de 2012

Este caminho


Caminhamos lado a lado, olhos avessos e trapaceiros. Sentamo-nos em qualquer escada de areia feita com os sonhos que tinhamos e que temos. Se eles estão lá já não os vemos. A serenidade do final do dia, o sopro da brisa fresca que me acarinha o rosto enquanto contemplo o mar. E tu estás a meu lado, mas só que eu não te vejo. E a noite cai, pesada sobre o areal quente do sol. Atrai-me este contraste, entre o frio e o quente, o escuro e o claro. Eu e tu. Mas tu não estás aqui, mesmo que eu te traga comigo. Estás distante, dentro dessa barreira de que te cercaste. Edificas-te muros dos quais não te consegues separar ou afastar. Ser aquilo que todos pensam e que não custa é tão fácil. Dizer que és tanto ou coisa nenhuma apenas para que tudo se justifique não chega a compor a pequena película superfícial de que te cobres. Transpareces alguém mais rude do que és, porque custa tanto mais admitir que nos ferimos, que erramos e que custa remendar o passado. Custa ser doce quando a vida é tão dura a quem é mole. E no fundo tu estás cá, mas com a força de não quereres estar porque não é isso que pensas que queres para ti, desapareces, por debaixo deste luar que me alumia, noites sem fim. E eu descanso. Penso. Não queres sentir ou sequer pensar em sentimentos. Dói pois a rejeição, dói pois magoar aqueles que gostamos. Mas porquê esconder isso? Só se tivermos vergonha do erro, vergonha que podiamos ter feito melhor. E é nisso que penso enquanto o luar incide sobre o mar revolto, o quão dificil é estar aqui e não te sentir, porque essas barreiras são tão maiores que eu, porque a tua vontade é tão maior que eu, porque sou tão complacente com o que me dizes. E deâmbulo por estes grãos de areia que já te conheceram, onde gostava de contigo partilhar todo o mundo que eu vejo apenas por aqui estar. Mas não depende de mim, depende de tudo e de nada, depende do caminho, do momento, da conjugação de acontecimentos. E se aqui voltarmos um dia, talvez te conte tudo aquilo que pensei, porque terás superado todos esses bloqueios. Até lá mareio pelos lençois da vida, tantas vezes suaves como ásperos.