' sozinhos não eramos mais do que vento a roçar o solo despido de qualquer graça '

Sejam bem vindos a este cantinho, a estas páginas de sentimentalismo

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

o Tempo

Já vi passar o tempo.
Já o senti.
Já o tive nas mãos, adorando-o, aproveitando-o como mais nada.
Já o perdi.
Já tive necessidade de o buscar, ter mais e mais e não o ter.
Já me cansei dele.
Já chorei por ele, perdida em si e sem saber como o agarrar.
Nada é fácil no que diz respeito ao tempo. Ora o há demais, ora o há de menos.
Não me lembro de ter tempo a mais. Já foi há tanto tempo. E no entanto, nem foi assim tanto. Mas tanto passou entre esse tempo e o de agora que a intensidade dos eventos me conduz a este saudosismo. 
Tanto tempo.
Tão pouco tempo.
Há quem veja as horas passar numa imensidão de tempo. Perdidos em cada segundo que demora a passar.
Por outro lado, há quem perde todos os segundos, não os vendo por nada.
E no meio de tanto tempo que passa, o tempo passa. 
Esta sensação ambígua, quase dolorosa, de que não o temos de nenhuma forma.
E no fundo o tempo já passou, no imediato segundo em que temos consciência dele, pois quando pensamos no agora ele já foi. E assim ele continua, fugaz como só ele, escapando a qualquer tipo de controle por parte de quem seja. 
Deixá-lo ser assim, fugaz.
Deixar-nos ser assim, frágeis.
Tempo, tempo, tempo... 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

É tempo para questionar

Onde será que isto nos leva? Este comboio fora dos trilhos, desvairado pelos caminhos passados e com o vapor a baixa produção... se escolher o caminho é exaustivo, dar-lhe forma e consistência deixa-nos sem forças para muito mais. E quando tudo é estímulo, tudo é merecedor da nossa atenção, quando há tanto que viver e tão pouco tempo para o fazer, não é fácil dar continuidade, padecer e levar a bom porto o que se iniciou. E onde será que isto nos leva? Nunca saberemos antecipadamente com segurança esta resposta. Mas o que sabemos é que se não tentarmos nunca saberemos, nunca teremos o sabor agri-doce da vida na nossa boca.
Deixando-me agora descansar... volto a perguntar: Onde será que isto me leva?


terça-feira, 10 de setembro de 2013

A paixão

Apaixonamo-nos por palavras. Apaixonamo-nos por ideias. As palavras são fáceis de domar, moldáveis ao próprio pensamento. As ideias são características, são pouco nítidas e facilmente incorporadas em variados contextos. Palavras e ideias, não é preciso mais. Há palavras que chamam mais à atenção. Há palavras, apenas e somente determinadas palavras, que quando proferidas num determinado momento, assemelhando-se a uma dada ideia, se tornam numa paixão. Nada concebido. Nada premeditado. Mas no fundo tão concebido e tão premeditado como a paixão acesa por essa palavra e ideia, que são tão gerais quanto particulares, mas nunca verdadeiramente genuínas ao momento em causa. É uma predisposição de se ouvir o que se quer. E assim, mesmo não podendo contrariar, somos vítimas da nossa auto-adoração, de valorizar tão somente aquilo que já gostamos, não dando o verdadeiro espaço para algo novo e único. Apaixonemo-nos então. 

domingo, 8 de setembro de 2013

Perdida em ti

Perdidamente. Aqui e ali. Perdidamente. Sobeja-me clarividência em tanto na vida, sempre confiante, sempre desafiante. Aqui e agora não tanto. Aqui e agora fito-te os olhos sem saber o que significam. Aqui e agora sinto-me perdida no meio de tantas acções e palavras. Perdidamente.
Um dia sonhei encontrar-te. No sonho era fácil. No sonho tu compreendias. No sonho tu não me fugias repetidas vezes, livre e despreocupado. No sonho eu não me justificava sobre coisas tão de menos. No sonho não eram precisas tantas palavras.
Questiono-me no passado, presente e futuro. Questiono-me aqui e lá. Questiono-me. Não vejo o que se vê. Não oiço o que se ouve. Vejo-te a ti, vezes sem conta, vejo e vejo mais. Distraio-me a ver-te, de tão detalhadamente te vejo, mas não vejo aquilo que mais se vê.

Custa ou não custa, dói ou doeu. Se custa já custou, se já custou já não custa. Passar vai passando, mesmo quando não se esqueceu. Fito e desfito toda a fita que me rodeia, ela é grande e pequena, tem-te e não te tem. Assim me perco, novamente. Continuo. Perdidamente.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Viagem numa névoa de fumo

Espessa e convoluta, rodeia-me esta névoa de fumo, ora agressiva ora doce, envolvente apenas, estonteante até. O tempo pára.
Sinto a tua respiração, ofegante do cigarro fumado. O tempo pára.
O tempo pára.

O mundo gira à nossa volta, os risos habituais, as conversas que não oiço porque não consigo ouvir nada mais. O tempo parou.
Sorris, sorrio, sorrimos um pouco de cada vez, ora hesitantes ora ousados, sorris, sorrio, sorrimos um pouco mais. O tempo parou.

Os dados rolam, vão rolando e roçagando-se no tapete usado de tantas vezes jogado, um passado e presente, tão próximos e tão íntimos, mas intocáveis ainda assim. Rolam e não deixam de rolar, mas não os vejo. Foi um ou dois, foram dez ou vinte? Não sei, não vi. O tempo parou, mas não deixou de rolar; o movimento dos dados é tão relativo quanto o tempo. Para mim deixou de contar, lá fora continuou a rolar. Rolou ou não? O que importa? Para mim não rodaram e nem o tempo passou. Fiquei lá, assim, pasmada.

Sinto o fresco da noite, refresca-me a pele. Só agora notei que é noite. É noite ou dia? Nem me tinha indagado com tal. O que importa?, pensei eu. Nada!, pois. Noite ou dia, manhã ou tarde, tempo é tempo e se eu não o vejo, não importa se é noite ou dia, manhã ou tarde. Estou aqui, envolta nesta espessa e convoluta névoa de fumo, perdida no tempo e num lugar. Estou aqui. Também não importa onde. Encontrei este lugar e aqui quero ficar. Não o conheço bem, não sei o que é, não lhe conheço os cantos, mas sei que aqui dentro estou num sítio mágico... Aqui eu sinto-me bem. Mesmo envolvida nesta fumaça é como se ela não existisse. Ela existe sim. Faz parte deste lugar, que é bom. É quente. Quente não, é bom. Ele desmultiplica-se, encolhe e expande. Volta-se a encolher e a expandir e fica frio de repente, mas eu estou bem aqui. É quase como se me sentisse em casa, é confortável e tranquilo. Mas expande e encolhe tão rápido, não vejo, e dou por mim enrolada a um canto, perdida nestes cantos, pergunto-me onde estou. Estou bem aqui?, indago.

Volto a mim. Perdi-me no teu olhar. Estava aqui distraída, sem dar conta do tempo ou do lugar, que até me perdi no teu olhar, viajei pelas ondas de cor, pelos nervos sensoriais e cheguei a algum sítio que gostei, onde me senti em casa. Mas esse lugar é ansioso e não gosta de estranhos, é frio e quente, é confortável e inesperado.  


De repente, todo o som, todo o tempo, todo o lugar, tudo me alcança exasperadamente. Um turbilhão de agressões, uma multitude de sensações, tudo me alcança exasperadamente. Olho à volta e já nada está ali. Nem os sorrisos, nem o conforto daquele lugar ou a névoa espessa que me envolve deliciosamente num transe por um mundo só teu, onde qualquer estranho é impedido de entrar, excepto, talvez, por raros instantes, em momentos como este, em que o tempo pára, de tão bem que nos sentimos assim, ingénuos. O tempo voltou, oiço claramente as conversas alheias, o roçagar dos vestidos nas pernas, o bater dos sapatos na madeira velha do chão. A televisão pisca e incendeia-me os ouvidos de som, as luzes dos candeeiros encadeiam-me a visão. O teu olhar perdeu-se no meio de alguma coisa, voltaste a ficar ausente. Despedimo-nos assim, como em tantas noites, envoltos em mistério e magia, mas sós, completamente sós.