Chove incessantemente, chove e chove. Tentaria que não chovesse, se ao menos pudesse fazer com que parasse, sim, era isso. Mas como posso eu parar a chuva, se nem as lágrimas que oculto param de cair. E é disso que se trata, parar o que queremos, travar o que não queremos que nos inunde o nosso espaço, que corra para nós e nos espelhe o que temos, o que não temos e o que somos. O que tenho é tanto mas porque não me chega? E aquilo que não tenho porque não quero sequer olhar? Não está certo querer o que não podemos ter, para simplesmente dispensar o que podíamos, simplesmente porque podemos. Porque sinto que faço isso quando sei que o não devo fazer, quando não há motivos para o fazer, porque não sou quem deva, para isso fazer? Querer o que não podemos ter faz-nos fazer destas coisas. E lá fora chove, reflexo da minha alma, perdida na tristeza do abandono do ser, de ter tanto e não ter nada, só neste mundo de confusão e ilusão, em que o tudo é nada e o nada é tudo, onde a escala de som está invertida e distorcida, em que o normal é gritar quando se quer desabafar e falar doce quando se quer enganar. És a harmonia dos corações quando penso em ti, e sorrio no que penso porque o que penso é bom e tu havias de gostar. Nada de indiscreto, mas puro e do teu jeito. Mas tudo aquilo que nos separa é água, a água destas lágrimas que derramo, porque no meio de todo este incumprimento há outros que sofrem, tão silenciosamente quanto eu. E porque devo eu deixá-los sofrer, quando não é isso que tenciono? Era tão mais simples se nada disto tivesse acontecido, se naquela manhã que te vi, dos teus olhos não me tivesse apaixonado, talvez nunca estas palavras escrevesse, fosse a ti ou a alguém. Se o teu olhar no meu não tivesse tocado, talvez nada disto se tivesse passado. Mas como desejar que nada disto tivesse acontecido, se o que sinto é por ti tão bom e carinhoso? Não quero nada em troca, talvez. Leva-me as lágrimas de despeito, a dor de nada disto ser possível, apenas, porque não te conheci noutro tempo, com outro alento, com outro elenco. Desculpa-me por estas palavras, mas sem elas eu estaria só.
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